quarta-feira, setembro 27, 2006

Entre quatro

O meu amigo Fabrício, que já foi um colaborador do Wear Sunscreen, sempre despertou minha admiração por sua multiplicidade. Ele trabalhou na área de pesquisas biológicas (algo a ver com retinas de tartarugas... risos), fez palestras sobre RPG, teve uma pizzaria, escreve muito bem (sempre distribuindo reflexões que são verdadeiros socos), trabalha com programação e agora, tem uma produtora de vídeo.

O nome da produtora? Entre quatro. Lembro que na época em que conversamos um pouco sobre este novo projeto dele, havia uma grande excitação nas palavras. Mas esta é mais uma característica que percebi nele: uma empolgação em tudo o que se propõe a fazer.

Ontem conferi as produções mais recentes da Entre quatro. São curta-metragens com uma linguagem bem interessante.

A final é uma produção de 2005 e mostra num diálogo breve entre amigos, a lembrança de um fato passado que os une e ao mesmo tempo os desarmoniza.

A comédia do Divino é a produção mais recente. Lembra em muito a linguagem de humor nonsense da saudosa TV Pirata. Vale a pena conferir. Eu delirei em muitas referências que encontrei por ali. Ahhh... no YouTube, A comédia do Divino foi dividida em duas partes (parte 1 e parte 2).

terça-feira, setembro 26, 2006

Uma relação pornográfica


E como amor pode ser tão complicado? Às vezes, a possibilidade do amor está tão escancarada na nossa frente mas resistimos a aceitar o que sentimos. O amor causa felicidade mas também causa um medo.

O amor, como já foi cantado, não sabe esperar. Um minuto antes e o amor acaba. Um minuto depois e o amor acaba. E arriscar-se é algo que ninguém quer fazer, porque da mesma forma que podemos acertar na escolha, podemos também errar e sair mais machucados do que quando entramos.

O medo de amar e de se envolver permeia as relações... Quem é que gosta da sensação de se sentir “dependente” de alguém? Quem é que assume tranqüilamente o fato de estar completamente à mercê da pessoa que você ama? Quem é que em sã consciência aceita sem sobressaltos na alma, o fato de estar entregando sua vida inteira para outra pessoa?

“Nem sei se gosto mais de mim ou de você... Vem, que a sede de te amar me faz melhor. Eu quero te sentir ao meu redor, preciso tanto me fazer feliz.” A música já mostra neste jogo de pronomes a perda da identidade e o processo de “mescla” que acontece no amor... onde começa a minha vida? Onde começa a sua vida?

O filme “Uma relação pornográfica” trata deste contexto: o medo do envolvimento. Sexo é amor? Não necessariamente... e o filme deixa isto de forma bem clara. Nathalie Baye, melhor atriz no festival de Veneza 1999 por sua interpretação, e Sergi Lopez, formam um casal que se encontra por pura curiosidade e satisfação sexual.

Um homem, uma mulher e uma fantasia sexual. Eles decidem dividir esta fantasia e realizá-la, sem buscar maiores envolvimentos. Mas, o que começa como uma relação puramente sexual, por força do envolvimento criado, evolui para amor.

O diretor belga Frederic Fonteyne usa muito bem um recurso para marcar a distinção entre o sexo e o amor. No momento em que apenas a fantasia sexual dos parceiros está sendo satisfeita, sem nenhum envolvimento, a câmera permanece do lado de fora do quarto... focalizando somente a porta que se abre e se fecha.

Quando existe o início de um envolvimento amoroso, a câmera entra e acompanha os amantes no quarto. Marca-se de uma forma simples, a diferença entre o sexo e o amor.

Mas, o caminho para a criação da intimidade, da real intimidade é confuso. Na transição, nenhum dos dois sabe exatamente o que sente em relação ao outro. Dividem a cama mas não sabem sequer o nome um do outro.

Dizer “eu te amo” com uma convicção de sentimentos é algo difícil e segue um caminho tortuoso. Para quem já viveu isso (ou vive isso, afinal o amor está nascendo a todo instante... o amor não sabe esperar), vale a pena acompanhar o fluxo de emoções contrastantes e das dúvidas que envolvem os amantes.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Consumo. logo existo.

O título acima é um trocadilho com a máxima de Descartes ("Penso, logo existo") feita pelo Frei Betto no artigo que escreveu para o Diário de Minas.

Vale a pena a leitura e a reflexão sobre o nosso modo de vida. Que valores será que estamos cultuando? Será que não vale a pena fazermos mais dos passeios "socráticos" citados pelo Frei Betto?

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Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. “Quem trouxe a fome foi a geladeira”, disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc.

A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano – e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos Manuscritos econômicos e filosóficos (1844), ele constata que “o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós.” O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível; porém, se traz a assinatura de um famoso estilista, a gata borralheira se transforma em Cinderela…

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de “com mercê”, com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora, o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. “Nada poderia ser maior que a sedução“ – diz Jean Baudrillard – “nem mesmo a ordem que a destrói.” E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira, o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. “Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático”, respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

sábado, setembro 23, 2006

Diário de viagem: dia 6 - sorvete de laranja com gengibre e sorvete de queijo com goiabada

Último dia no Rio de Janeiro... e confesso que fico com saudades desta cidade que jamais imaginei que poderia me cativar. Na verdade, a minha relação afetiva com os lugares e as cidades é conseqüência imediata das pessoas que encontro.

O Rio de Janeiro agora é uma cidade que me faz querer voltar. Não porque deixei de conferir um pôr-do-sol no Arpoador, mas sim por conta de saber que na cidade, tenho agora pessoas que me receberão com sorrisos e abraços.

A cidade já não me é estranha... a cidade agora faz parte da minha história porque na cidade tenho pessoas a quem quero bem.

Uma vez, um grande amigo meu disse que não importava o lugar onde íamos. O lugar era a coisa menos importante, o essencial, segundo ele, era estar na minha companhia. E é este o segredo da boa diversão: se eu estou com alguém agradável, irei certamente me divertir. Se coincidir de a companhia e o lugar serem agradáveis, o programa será excepcional.

Não me importo que o sábado tenha sido cinzento nem que eu tenha ficado dentro de um apartamento durante algumas horas. O importante é que eu estava com quem eu queria estar. O importante é que eu aproveitei a companhia de quem eu desejava desfrutar.

E sei que neste último dia, vejo a cidade do Rio de Janeiro com saudades. Saudades de quem fica na cidade. Saudades com desejo agridoce de voltar logo.

Neste último dia, aproveitei a manhã para caminhar pelo Leblon e Ipanema. Tomei café da manhã na livraria Letras e Expressões. Um chá indiano acompanhado de um bolo de laranja com nozes. Adoro livrarias! Geralmente me perco entre os livros, gastando horas e horas folheando e pinçando aqui e acolá algum parágrafo que me chame a atenção.

E naquela manhã, acabei me deparando com "O silêncio da chuva" de Luiz Alberto Garcia-Roza. Tinha 6 horas de viagem pela frente. Um livro seria uma boa companhia na estrada.

Da livraria, segui caminhando pelo Leblon com minhas amigas. Descobrindo lugares nas ruas com pouco movimento naquele domingo. Avançamos até chegar na rua Garcia D' Ávila e encontrar a Mil Frutas.

Aliás, para quem for ao Rio, esta é uma parada obrigatória. Já pensou em sorvete de uva verde com manjericão? E um de tamarindo? Prefere um sorvete de tiramisú? Tem lá também. A Mil Frutas é um paraíso de sabores em formato de sorvete de massa. O melhor de tudo: nenhum deles leva substâncias conservantes nem espessantes nem gordura trans. Bom para o paladar, bom para a saúde.

Eu fiquei com dois sabores: laranja com gengibre (deliciosamente refrescante) e queijo com goiabada (achou estranho? Prove e você se perguntará "como é que não fizeram este sabor antes?").

Depois dos sorvetes, uma caminhada rápida de volta ao carro (que tinha ficado próximo da praça Cazuza, no Leblon) e direto para a rodoviária.

No ônibus, abri a primeira página do livro recém-comprado. E li a estória de um investigador da DP na praça Mauá. Seguindo na leitura, descubro que o investigador Spinoza (personagem central do livro) mora no bairro Peixoto. Fechei os olhos e sorri: eu conhecia aquele bairro. E a descrição que o autor fazia da praça me fez lembrar de mim e meu amigo caminhando pela feira que acontecia naquela quarta-feira em que nos conhecemos pessoalmente.

Saudades... saudades da cidade que ficava agora para trás, saudades da minha amiga que me recebeu tão graciosamente em seu apartamento, saudades do meu novo-velho-amigo que tal qual na fábula da raposa e do pequeno príncipe, conseguiu me cativar. Saudades... simplesmente, saudades.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Diário de viagem: dia 5 - e eu só queria ver o pôr-do-sol no Arpoador

E o sábado amanheceu cinzento... só pra mudar todos os planos traçados. O planejado era fazer uma trilha lá pelos lados da Urca, guiado pelo vizinho do meu amigo. Pois é... esta minha mania de já fazer amizade com quem conheço. Já estava ali conversando com o vizinho do meu amigo e atraindo-o para o meu círculo de amizades.

De qualquer forma, eu e meu amigo acordamos tarde. E depois da decisão de não fazer a trilha, decidimos simplesmente caminhar pela praia. Coisa que, acreditem se quiser, não tinha feito ainda nesta semana que passei no Rio.

E lá fomos nós... eu, meu amigo e uma amiga do meu amigo. Na caminhada pela praia, o grupo foi aumentando. A cada passo, a cada posto, a cada quiosque, via que meus companheiros de caminhada encontravam vários amigos.

Lembrei-me desta dinâmica nas cidades de praia. A praia é a grande praça, o grande ponto de encontro, onde todos se cruzam (querendo ou não). Quando eu me mudei de São Paulo para Santos, estranhei muito isso. Caminhando pela areia, acabava inevitavelmente encontrando as pessoas. Em São Paulo, percebo que posso passear anonimamente por mais tempo. Ainda mais eu... que nunca fui de frequentar o mesmo lugar.

Mas já estou devaneando... na caminhada fomos desfrutando de um tempo agradável. Um vento fresco e constante amenizando o sol. Apesar do céu cinzento e de uma ameaça de chuva, seguimos caminhando até Ipanema. Copacabana, Arpoador, Ipanema. Tirei até foto ao lado de Carlos Drummond de Andrade.

Colocaram uma estátua do poeta mineiro (um Estado sem praia) diante do mar de Ipanema. Sentei-me ao lado dele, segurei as mãos de metal e pedi a benção do poeta, do céu e do mar.

No final da tarde, meu estômago começou a reclamar. E só então lembrei que só tinha tinha comido um sanduíche de blanket de peru no café da manhã. Hora de almoçar (e isso quase às 5 da tarde). Fomos para um restaurante em Ipanema. Eu e meu amigo comemos algo. E seguimos para tentar ver o pôr-do-sol no Arpoador.

O céu ficou mais nublado e o vento, antes refrescante, tornava-se mais frio. Vontade de me aquecer. Desistimos de subir na pedra do Arpoador e fomos retornando para Ipanema.

Eu me despedi de todos para seguir na direção oposta. Encontrar minahs amigas na Barra da Tijuca enquanto eles iriam para outro encontro com amigos em Copacabana. Na Barra, ao chegar no apartamento da minha amiga, já tinha descoberto que outros programas já tinham sido feitos.

Apenas segui com elas para encontrar e conhecer mais pessoas e conversar e dar risada. Dia ameno, já transparecendo uma certa saudade...

quinta-feira, setembro 21, 2006

Diario de viagem: dia 4 - curtindo a noite

Depois de um dia marcado por uma viagem a um tempo diferente do meu, fui me refugiar a noite no meio de muita música.

A minha amiga-paulistana-roxa-que-hoje-mora-no-Rio comentou sobre um lugar chamado Rio Scenarium. Falou sobre o ambiente inspirado nos tempos do Rio antigo, na boa música e na localização estratégica na Lapa.

A Lapa, para quem não sabe, tem a fama de ser o bairro-boêmio por excelência ali no Rio. Já tinha passado pela Lapa no meu caminho para Santa Teresa (o bondinho parte da Lapa). Até cheguei a caminhar um pouco pela rua do Lavradio, deliciando-me com aquele visual meio decadente, meio antigo-sendo-usado dos imóveis dali.

Os shows prometidos para a noite eram das bandas Scandallo e Botafogonisso, samba e gafieira. Confesso que nenhum dos estilos faz a minha cabeça... preferimos (eu e minhas amigas) chegar mais tarde e curtir a discotecagem no salão anexo.

O Rio Scenarium é um espaço generoso para todas as tribos. No primeiro andar rolam os shows das bandas. No segundo andar fica o Barmácia, bar com decoração remetendo äs prateleiras com aqueles vidros antigos de farmácia, e o salão anexo, onde rola a discotecagem a partir da meia-noite. E no terceiro andar, fica o restaurante, área mais tranquila e propícia para uma conversa mais tranquila.

Na pista, muita MPB remixada... na hora em que apareci na pista, começou a tocar Rita Lee, seguida de Chico Science, Vanessa da Mata e com pitadas generosas de Jorge Ben. Eu me acabei de dançar na pista. Deu até um certo medo quando o DJ colocou "Fio maravilha" e o povo da pista começou a pular naquele piso antigo de madeira... dava pra sentir o piso tremendo junto com a animação do povo.

De lá, fui buscar refúgio no apartamento do meu amigo lá no bairro Peixoto. Onde, após um bom banho, adormeci aos poucos, depois de alguma conversa e umas cenas de "O céu que nos protege".

Diario de viagem: dia 4 - viajando no tempo, baobas e esculturas de fumaca

A proposta do dia era conhecer a tão comentada ilha de Paquetá. Confesso que não tinha expectativa alguma em relação a viagem e por isso, nem sabia o que esperar.

Na estação das barcas, uma notícia chata: a barca para a ilha já tinha partido e agora, teríamos que esperar pela próxima que sairia 1 hora e meia depois. Aproveitamos (eu e minha amiga) que estávamos na região do centro e fomos caminhar pelo quadrilátero cultural do Rio de Janeiro: Espaço Cultural dos Correios, Centro Cultural Banco do Brasil, Casa França-Brasil.

No CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil, uma exposição individual do Anish Kapoor. Quem não conhece, o artista indiano Anish Kapoor é famoso por suas obras esculturais que trabalham muito com a questão de espaço e perspectiva. A instalação que mais chamava a atenção era "Ascension".

Quando pensamos em escultura, pensamos em algo sólido, em pedra e outros suportes igualmente sólidos e maciços. Pois bem, em "Ascension", Anish Kapoor usa como matéria-prima o ar. Isso mesmo... no meio do saguão do CCBB, uma grande coluna de fumaça, às vezes mais grossa e nítida, outras vezes mais suave, seguia ocupando todo o vão central.

Quem diria... uma escultura feita em fumaça e vento, um mini-tornado no meio do saguão de um prédio antigo do Rio de Janeiro.

Do CCBB, fomos para a Casa França-Brasil. A exposição ali era uma individual com telas do Jô Soares. O que tenho a dizer sobre as telas do Jô? Sei lá... prefiro ele como comediante. Nem acho que ele seja um entrevistador bom quem dirá artista plástico. Escritor? Não vou comentar porque nem li "O Xangô de Baker Street" ou qualquer outro livro dele.

O relógio já indicava que a barca para a ilha iria partir em breve. Eu e minha amiga nos dirigimos para a estação das barcas e partimos. O percurso até a ilha dura 1h00... e fiquei meio assustado com isso. Em tempos de fast food, fast love e fast-qualquer coisa, a gente está acostumado com coisas mais rápidas. Em uma hora, muita coisa pode acontecer... no meu caso, eu estaria lá numa barca indo para a ilha de Paquetá, singrando a baía de Guanabara.

A sensação é que você está entrando numa outra esfera de tempo... onde tudo parece convidar a uma desaceleração e a um exercício de olhar contemplativo.

A chegada na ilha soa estranha... a barca atraca e de repente, vejo milhares de pessoas me abordando perguntando se eu quero uma charrete ou uma bicicleta. Percebi então que carros não circulam por ali. Ou se circula de charrete ou de bicicleta ou de algo semelhante a um riquixá (só que puxado por uma bicicleta).

O cheiro nas ruas era de cocô de cavalo... Aff... quem idealiza uma vida nos tempos medievais, deveria experimentar viver cercado por este cheiro 24 horas por dia. Adoro a modernidade!! risos. Seguimos a pé mesmo, meio apressados para ver o máximo possível e não perdermos a barca.

Caminhamos pela rua que margeia o mar no lado do atracadouro. E avisto ao longe, para minha surpresa, um baobá. Eu achava que os baobás eram árvores tipicamente africanas, mas eis que encontro um (bem grande por sinal) ali em Paquetá. Lembrei do livro de Antoine de Saint-Exupéry: "O pequeno príncipe".

E coincidentemente, anteontem tinha recebido de um amigo meu o texto do diálogo entre a raposa e o pequeno príncipe, aquele em que ela ensina o que significa "cativar". Ali, na ilha de Paquetá encontrei um baobá bem parecido com aqueles das ilustrações do Pequeno Príncipe. E não pude deixar de sentir que alguma coisa do pequeno príncipe estava desperto em mim. E também não pude deixar de lembrar da lição da raposa: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

Seguindo pela ilha, vimos o relógio e partimos em disparada em direção ao atracadouro. Sabe aquela visão que a gente só imagina nos filmes? Você num ilha e vendo o navio partindo ao longe sem você? Pois é... a imagem foi bem esta. Eu e minha amiga correndo e vendo o barco partindo lentamente para o continente. Sim, estávamos presos ali na ilha... pelo menos até a próxima barca que partiria somente daqui a 1h e meia.

E eu que tinha combinado de encontrar meu amigo para passarmos a tarde juntos na cidade, estava naquele momento, preso na ilha. O que fazer? Sentar e chorar? Claro que não... já que estava ali, iria caminhar e aproveitar para descobrir os caminhos daquela ilha.

Minha amiga quis matar a sede. Parou num boteco e se deliciou com uma Coca-Cola. Eu fui ao posto de telefones públicos e pedi por um cartão. O mais engraçado é que ali naquele posto de telefones públicos não tinham cartão para vender. Algo quase kafkaniano... e o melhor é continuar rindo para não chorar.

A sorte estava ao meu lado e minha amiga tinha um cartão com alguns minutos de conversa... liguei para meu amigo e disse que estava preso na ilha e que não poderia encontrá-lo naquela tarde.

O restante da tarde foi aproveitado numa caminhada pela ilha. Sim, vi a pedra da Moreninha (apesar de nem saber quem era a Moreninha e de nunca ter lido o livro do Joaquim Manoel de Macedo). Vi uma casa onde ficou hospedado o José Bonifácio de Andrada e Silva (ahhh... estes lugares que buscam qualquer resquício de história para transformar em pontos turísticos) e caminhei muuuuuito por um parque numa das pontas da ilha.

Segundo a placa, naquele local do parque havia uma mansão e o proprietário daquela área tinha até recebido a cientista Marie Curie em sua casa. O visual que se tem das ruínas é fantástico. E no século retrasado, aquele lugar deveria ser um verdadeiro paraíso. A impressão que tenho agora é que a ilha de Paquetá é um lugar anacrônico, marcado por saudosistas de um tempo áureo que não volta mais e que preferem manter uma aura de passado. Decadente ou saudosista? A conclusão fica para cada um que passar por ali. Eu me senti imerso numa verdadeira bolha de tempo...

Nada de barulhos de motores, nada de ruídos urbanos... Acho que isso só experimentei em poucas ocasiões: a primeira numa visita que fiz em Veneza. Nas ruas mais afastadas do agito, cruza-se com canais minúsculos e centenários e um silêncio estranho. A outra ocasião foi quando visitei Fernando de Noronha... via-se algum veículo somente no aeroporto ou na área da rodovia. O restante da ilha era dominado por céu, sol e mar... e que céu, e que sol, e que mar!!!